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O Impacto da Homocisteína na Doença Cérebro e Cardiovascular

Atualizado: 13 de set. de 2023



A homocisteína, um aminoácido resultante do metabolismo celular, é conhecida por exercer uma influência adversa direta sobre o endotélio vascular. Neste artigo, examinamos a eficácia de intervenções terapêuticas destinadas a reduzir os níveis de homocisteína como medida preventiva contra doenças cardiovasculares.


Em 1962, o pesquisador norte-americano Kilmer McCully propôs uma teoria que sugeria uma possível ligação entre níveis elevados de homocisteína e o desenvolvimento de doença aterosclerótica. Essa teoria foi baseada na observação de casos de aterosclerose avançada durante autópsias de duas crianças afetadas pela homocistinúria, uma condição genética caracterizada por níveis significativamente elevados de homocisteína. Além disso, McCully também baseou suas ideias em uma série de experimentos conduzidos em animais. Inicialmente, a comunidade científica recebeu com ceticismo as alegações de McCully, mas ao longo dos anos 90, sua teoria começou a ganhar mais aceitação, levando ao início de numerosos estudos destinados a testar essa hipótese.


O que é a homocisteína?


A homocisteína é um aminoácido que não desempenha um papel direto na síntese de proteínas, mas atua como um intermediário crucial no metabolismo da metionina, um aminoácido essencial. A metionina, que é obtida a partir da dieta (principalmente de fontes como carne, peixe e ovos), passa por uma série de reações intracelulares que a transformam em homocisteína. Durante esse processo, a S-adenosilmetionina é formada e atua como a principal fonte de grupos metil no organismo. A homocisteína resultante pode ser subsequentemente convertida de volta em metionina ou direcionada para a produção de cisteína através da via da transulfuração. É importante ressaltar que esses processos de metabolização da homocisteína dependem da presença adequada de três vitaminas essenciais: ácido fólico, vitamina B12 e vitamina B6.


Fig.1 – Ciclo da metionina-homocisteína.



Quais são os níveis típicos de homocisteína?


Para a maioria dos laboratórios, os valores normais de homocisteína costumam ser situados na faixa de 5 a 15 micromoles/litro (µmol/L). No entanto, valores inferiores a 10 µmol/L são considerados ideais.


Em concentrações elevadas, a homocisteína pode desencadear os seguintes efeitos prejudiciais no revestimento interno dos vasos sanguíneos (endotélio):


1. Aumento do estresse oxidativo.

2. Aumento da inflamação.

3. Redução da elasticidade dos vasos sanguíneos devido à ativação de metaloproteinases e ao aumento na síntese de colágeno.

4. Interferência no efeito dilatador do óxido nítrico (NO).


Todos esses mecanismos contribuem para a disfunção do endotélio, que é um fator que promove o desenvolvimento da aterosclerose.



Há uma associação clara entre altos níveis de homocisteína e o risco de doença cardiovascular?


Com base na lógica apresentada até agora, seria razoável esperar uma forte associação entre níveis elevados de homocisteína e um aumento na incidência de doenças cardiovasculares. Inicialmente, estudos retrospectivos sugeriram essa ligação, no entanto, estudos prospectivos subsequentes não conseguiram confirmá-la.


Uma meta-análise de 2002 indicou que uma redução de 25% nos níveis de homocisteína poderia resultar em um risco 10% menor de doença coronária aterosclerótica.


Quais outras associação entre altos níveis de homocisteína e o risco de outras doenças?

As principais associações entre a elevação da homocisteína e a saúde são:

  1. Doenças Cardiovasculares: A elevação da homocisteína no sangue tem sido associada a um maior risco de doenças cardiovasculares, como doença cardíaca coronária, acidente vascular cerebral (AVC) e aterosclerose. Isso ocorre porque a homocisteína em excesso pode danificar as paredes dos vasos sanguíneos e aumentar a formação de coágulos sanguíneos.

  2. Defeitos Congênitos: Níveis elevados de homocisteína durante a gravidez podem aumentar o risco de defeitos congênitos, como espinha bífida e problemas cardíacos no feto. Suplementação de ácido fólico antes da concepção e durante a gravidez é muitas vezes recomendada para reduzir esse risco.

  3. Doenças Neurológicas: Alguns estudos sugeriram uma ligação entre níveis elevados de homocisteína e doenças neurológicas, como doença de Alzheimer, demência e depressão. No entanto, a relação é complexa e requer mais pesquisa para ser totalmente compreendida.

  4. Osteoporose: Elevados níveis de homocisteína também foram associados a um aumento do risco de osteoporose e fraturas ósseas em algumas pesquisas.

  5. Outras Condições de Saúde: Além das condições mencionadas, a elevação da homocisteína também foi estudada em relação a distúrbios oculares, complicações na gravidez e várias outras condições de saúde.

O que os estudos que investigaram intervenções farmacológicas mostram?


Dado que essa teoria é antiga, houve tempo suficiente para testá-la. Uma revisão sistemática da Cochrane Library de 2017 analisou 15 ensaios clínicos randomizados, envolvendo aproximadamente 70.000 pacientes no total. Em alguns desses ensaios clínicos, ácido fólico e vitamina B12 foram administrados a pacientes para reduzir os níveis séricos de homocisteína, enquanto outros receberam um placebo. Conforme indicado por essa revisão sistemática:


1. A redução dos níveis de homocisteína devido à suplementação vitamínica não teve um impacto significativo na incidência de doença coronária ou na mortalidade em geral.


2. No entanto, contribuiu para uma diminuição de 10% na incidência de acidentes vasculares cerebrais.


Em resumo, a homocisteína elevada é um marcador de risco importante para várias condições de saúde, especialmente doenças cardiovasculares. Avaliar e tratar níveis elevados de homocisteína pode ajudar a reduzir o risco dessas condições e promover uma saúde melhor a longo prazo. É crucial discutir os resultados dos testes de homocisteína com um profissional de saúde para determinar a melhor abordagem de tratamento, que geralmente envolve ajustes na dieta, suplementação vitamínica e mudanças no estilo de vida.


No entanto, é importante não descartar a homocisteína, mas sim integrá-la em uma avaliação abrangente e cuidadosa do perfil metabólico individualizado de nossos pacientes.






Referências:

Martí-Carvajal AJ, Solà I, Lathyris D, Dayer M. Homocysteine-lowering interventions for preventing cardiovascular events. Cochrane Database Syst Rev. 2017;2017(8).

Clarke R, Bennett DA, Parish S, et al. Homocysteine and coronary heart disease: Meta-analysis of MTHFR case-control studies, avoiding publication bias. PLoS Med. 2012;9(2).

Clarke R, Halsey J, Bennett D, Lewington S. Homocysteine and vascular disease: Review of published results of the homocysteine-lowering trials. J Inherit Metab Dis. 2011;34(1):83-91.

Cianciolo G, De Pascalis A, Di Lullo L, Ronco C, Zannini C, La Manna G. Folic acid and homocysteine in chronic kidney disease and cardiovascular disease progression: Which comes first? CardioRenal Med. 2017;7(4):255-266.

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